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Laura Finocchiaro relembra como foi revelar-se bi na TV em 92: "Gays e lésbicas criticaram"

Por Neto Lucon em 30/09/2015 às 09h04

Laura Finocchiaro relembra como foi revelar-se bi na TV em 92: "Gays e lésbicas criticaram"
A cantora, guitarrista e compositora Laura Finocchiaro, 53, é história viva da música brasileira e também do movimento LGBT no Brasil. Num período em que nenhuma artista ousava dizer o nome do seu amor, ela revelou na tela da Globo nos anos 90 que fazia parte da diversidade sexual. 

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“A liberdade tem um preço”, diz Laura, que na época chegou a ser criticada por gays e lésbicas – além de enfrentar dificuldades em um mercado fonográfico conservador, careta e extremamente preconceituoso. 
 
Mas ao longo de 30 anos de carreira, Laura passou vitoriosa por diversos segmentos feito camaleoa. Esteve nos primeiros trios da Parada LGBT de SP, cantou no Rock in Rio de 1991, teve música gravada por Cazuza, fez trilha para o infantil TV Colosso, fez shows na Lira Paulistana, lançou CDs com hits românticos, eletrônicos, mantras e baiões. E passou os últimos 15 anos fazendo trilhas para reality shows: da Casa dos Artistas, do SBT, até A Fazenda, da Record.
 
Atualmente trabalha em um novo disco – de eletro-orgânica - e atua como arte-educadora no Rio de Janeiro. Continua afinada, cheia de gás e buscando novos sons e possibilidades. Uma dica: Se você gosta de Vange Leonel, Cássia Eller e outros ícones da música – e que contribuíram com a bandeira LGBT – comece a prestar mais atenção em Laura Finocchiaro.

Confira um bate-papo com a artista.   
 
 
- Recentemente foi comemorado o Dia da Celebração Bissexual. E você foi uma das primeiras artistas brasileiras a se assumir bissexual na TV. O que lembra deste momento?
 
Falei para o Globo Repórter de 1992, numa reportagem da jornalista Ilze Scamparini. Foi um bafo para a época. Entrevistaram eu e a Lúcia Veríssimo. Ela desdobrou, desdobrou, mas eu falei claramente sobre a possibilidade de amar um ser humano independente do sexo. Disse que os anjos não têm sexo, que estão em outra frequência e que o mais importante é viver o que o coração está pedindo. Se ele mostra o amor por uma mulher, eu vou viver. Se for por um homem, eu vou viver também. 
 
- Como a comunidade LGBT encarou?
 
Por incrível que pareça, os gays condenaram a minha atitude, pois muitos queriam continuar no armário. Teve até um diretor que me ligou e disse: “Pô, por que você saiu do armário? Agora vou ter que explicar para a minha vó. O gostoso é fazer as coisas escondido”. E as lésbicas também me criticaram por ter dito que era bissexual: “Pô, você não assume que é lésbica”, “tem medo de falar que é lésbica”. Ou seja, eu achei que estava fazendo o bem, mas os gays colocaram em xeque a necessidade de dizer e as lésbicas me consideraram covarde. 
 
 


Em 1992, Laura lançava a música "Paixão"
 

- Conta como foi que você se descobriu bissexual... 
 
Na infância e adolescência eu não tinha muita relação com a sexualidade, pois vivia para o esporte e para a música. Tive vários namorados homens e muitas amiguinhas, daquelas de morrer por elas e andar de mãos dadas. Até que, com 17 ou 18 anos, eu tinha um namorado de que eu gostava muito, mas ao mesmo tempo eu me vi apaixonada por uma amiga. Não conseguia parar de pensar nesta mulher. Fiquei em conflito durante um ano: como poderia sentir tesão pelo meu namorado e ao mesmo tempo gostar, sentir paixão e desejo por uma mulher? 
 
- Conseguiu se entender de qual maneira? 
 
Eu já fazia ioga, alimentação natural, aprendia astrologia, era ligada nessas práticas alternativas e que deixavam a mente sã e o corpo são. Entendi que o amor de verdade vai além da aparência, do corpo ou só do sexo. Ele está na espiritualidade, nas coisas sutis, na alma ou na pessoa em si. Eu posso amar um homem ou mulher, porque o amor, assim como diz a música Link, “é a chave, forma, fundo, o motor do mundo, o amor é tudo”.  Tanto que a primeira mulher que eu me apaixonei, ela escrevia poesias. No começo, me apaixonei pelas ideias transcendentais dela, e comecei a criar música para tudo o que ela escrevia. 
 
- Muita gente ainda diz que os bissexuais são pessoas confusas e que não se decidem. O que diria? 
 
Bom, eu tô muito mais com mulher, isso é um fato. A primeira eu casei por sete anos, outra mais sete, uma 10 e, agora, estou há 10 anos com a Maria. Eu acabo casando com as mulheres, porque elas estão mais abertas a isso. Mas não quer dizer que eu não olhe para um bofe na rua e não tenha desejo. Eu não tenho nojo de pau, ao contrário, acho gostoso. Tive várias experiências com homens, mas fui entender maior o prazer com a mulher. Entendi que o prazer não era só foder, que era algo mais sutil. Hoje talvez os homens sejam mais esclarecidos que na minha adolescência. 



 
- De qual maneira ter se revelado bissexual repercutiu em sua carreira?
 
Acho que fodeu (risos). Tudo bem que nunca fiz parte da grande mídia, até porque nunca tive um grande empresário, mas daí me colocaram numa vala mais underground ainda. Era o underground do underground. Só me procuravam como uma figura exótica, só para falar sobre isso. Acho que eu metia medo, pois as pessoas não estavam acostumadas com alguém que falava o que pensava, que fazia a música que queria, que via a vida separada dessa monetização e não se encaixava como um produto. Como era a única que topava falar, comecei a participar da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo. Era eu e o Edson Cordeiro. 
 
- Vocês chegaram a cantar a música Viva a Diferença, né? Acho linda. Tem algo para falar sobre a Parada?
 
Isso. Em 2001, ocorreu um episódio interessante. Eu vi as mulheres lésbicas todas enrustidas, tímidas e as travestis todas lindas com os peitos de fora. Fui lá e tirei a minha blusa. Gritei: “Vamos se amar, vamos se libertar, vamos ter orgulho, metam os peitos”. E um monte de lésbica também começou a tirar a camisa. Foi uma liberdade incrível, mas eu paguei o preço. Neste dia, eu já fazia a trilha sonora da Casa dos Artistas (do SBT) e levei uma bronca dos colegas caretas. Fiz tudo isso para no livro que fala sobre os 10 anos da Parada nem ter o meu nome citado. 
 
- Ana Carolina, Maria Gadú e outras artistas que são bissexuais não gostam tanto de levantar a bandeira e raramente falam sobre a comunidade LGBT. Você acha importante o artista se posicionar?
 
Diante de um mundo tão medíocre, não há mais tempo para a mediocridade e a mentira. Mas a verdade dói e choca em todos os segmentos. Agora temos que saber respeitar a vontade individual de cada uma. Se ela não quer levantar bandeira, se ela não quer se assumir, é um direito dela. 

 



 

- Recentemente você publicou uma foto ao lado de Cássia Eller na época do Rock in Rio. Como foi esse contato? 
 
Depois do Rock Rio, teve uma festa chamada Aeroanta – era um espaço que começou nos anos 80 e ficou até os anos 90 . Teve um grande show com vários artistas e eu fui chamada para cantar com esses músicos. Quando a gente foi ao camarim dar um beijo na Cássia, tiramos aquela foto, que eu nem lembrava mais e foi um amigo que me enviou. Depois, quando fui casada com a Suzy (Capó), a gente se reencontrou e ela disse que amava as minhas músicas e que ela queria gravar. Mas a gravadora falou que eu era muito underground e ela ficou triste. 
 
- Por falar em Rock in Rio, gostou do Adam Lambert no Queen? 
 
Falam que todo mundo é substituível, mas tem coisa que é melhor não fazer de novo. Entendo que é uma máquina, que eles fazem 600 mil dólares por show, mas sinto falta do grande espírito do Freddie Mercury. O Adam é um cantor nota 10, os músicos são nota 10, mas por melhor que seja o show falta a alma. Agora querem resgatar o Legião Urbana, mas sem o Renato (Russo), sem a pessoa chave? Entende o que quero dizer?   
 
 - Há um ano você lançou um CD de música orgânica, o Copy Past. Quais são as suas novidades hoje? 
 
Estou no Rio de Janeiro fazendo trilha sonora institucionais, para emissoras de TV e dando aula. Eu estou amando resgatar o lado professora ou arte-educadora, pois cada aula parece um show. Farei um show na Livraria Cultura de Recife no dia 6 de outubro, às 20h. Será uma dobradinha do documenário "Cassandra Rios - A Safo de Perdiez" e um pocket show do CD Copy Paste Música Orgânica. Além disso, estou agitando um novo disco de Eletro-Orgânica, com muitas novidades por aí. É aguardar... 
 
 

 



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Comentários








Max: Não sabia que Maria Gadú é bissexual, pensei que fosse lesbica jurada e sacramentada!

Renard: Excelente entrevista!. Acredito que o grau de bissexualidade dela é muito baixo, assim como o da Ana Carolina e da Maria Gadu. Todas elas ficaram 99% da vida sexual com mulheres, mas cada um se define como quer e acredita quem quiser. Bissexuais verdadeiros são tão difíceis de serem achados quanto gays versáteis no sexo: muitos dizem que são, seja por ser politicamente correto, ideologia ou por ser mais palatável para o grupo social em que vivem, mas os verdadeiros mesmo são raríssimos. O que tem de "fake" nessa área....Quando a pessoa quer polemizar, não tem nada para falar ou precisa de mídia vai para a mesma e dá entrevista dizendo que é bissexual, mesmo muitas vezes sem ter chegado a ter qualquer contato sexual com o sexo oposto.

Bruno Pelachin: Conhecia muito pouco da Laura.!!!! Depois desta entrevista, me tornei seu fã. !!!!

Max: 1- Ainda hj muitos gays tem raiva de quem não esconde de ninguém que é homossexual. 2- Muita gente pensa que a pessoa bissexual gosta de homens e mulheres com a mesma intensidade, e nem sempre é assim.As vezes gostam mais de um género do que do outro, embora goste dos dois.Isso eu acho, pq eu sou homo, não vivo a situação para poder afirmar.

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