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Disparatada: Sobre cachorros gays

Por Tiago Duque* em 28/11/2012 às 19h02

Disparatada: Sobre cachorros gays

Eu havia acabado de entrar no prédio e avistei uma jovem muito bonita com um enorme cachorro nos braços. As regras de convivência do condomínio não autorizam que os cães andem nas áreas públicas sem estar nos braços dos seus donos.

A cara do cão e de sua dona não era de bons amigos. Então, resolvi ser simpático e falei: "Que lindo! Ele está estressado?". Imaginei que ela iria responder que sim, afinal, viver em um kitnet e ter que voltar para casa depois de um passeio pela rua não deve ser nada agradável para um animal.

Ela fechou ainda mais a cara e disse-me virando a cabeça do cachorro e apontando para um pequeno laço de fita lilás que se perdia entre os pêlos escuros: "Ele não é ele, ele é ela! Eu coloco esse laço aqui para as pessoas verem... coitadinha". A frase me soou familiar porque quem já não ouviu algo parecido quando a mãe de um bebê a usa em referência a alguém que troca o sexo da criança?

Inesperadamente a garota desistiu de esperar o elevador e foi de escadas. Não tive tempo de pensar. Queria ter dito: "Ah, bom. Achei que ele fosse gay!". Mas ela já tinha fechado a porta corta fogo.

Uma marca da nossa cultura capitalista e pseudo-solidária é a humanização dos bichos, em direta relação com a desumanização das pessoas. Um bom exemplo disso é que em um dos shoppings mais caros daqui de Campinas (SP) há também um espaço de compras intitulado "o shopping do seu animal", ilustrado com um simpático cãozinho empurrando um carrinho de compras com seu filhote dentro! Qualquer semelhança com a ideia de uma maternidade ou paternidade feliz não é mera coincidência.

Aqui, não defendo que os bichos não devam ter direitos, inclusive, nesse caso, acho que o cão, digo, a cadela, deveria ter um quintal enorme só para ela. Mas, não é esse o foco da minha reflexão. Quero chamar a atenção para a o fato de que se humanizamos os bichos, entre outras coisas, dando um carrinho de compras para eles e botando um laço de fitas em suas cabeças se forem fêmeas, contribuímos para a construção de um modelo de humanidade que, em relação aos outros cães e também a milhões de pessoas, é bastante limitada/excludente, e por isso mesmo, perigosa. Afinal, nem todo mundo que tem cachorro pode ir às compras e tantas outras pessoas, mesmo não tendo um sexo feminino, vão preferir se efeminizar.

Foi nesse mesmo dia que li a notícia do assassinato do queridíssimo Lucas Fortuna Guarani Kaiowá. O nome "Guarani Kaiowá" agregado ao seu próprio nome no Facebook mostra o tamanho da sua solidariedade, a sua fome de justiça e o olhar generoso de ver muito além da nossa dita "comunidade LGBT".

A mensagem de quem cometeu o crime era absolutamente clara. Como comumente conhecemos, envolve um corpo seminu, com repetidas marcas de violência e muito sangue. Aí, não há identidade que nos diferencie. Ao encontrarmos os corpos de amigos gays ou travestis vítimas de homofobia, a mensagem é a mesma: "É assim que vamos acabar com vocês!"

O inaceitável é que a notícia da sua morte não causou a mesma comoção que já vi nas redes sociais quando quem é violentado e assassinado são cachorros igualmente indefesos. Nesses dias, pensando nisso, achei que deveria escrever sobre a experiência de humanização dos bichos para ser lido por mais pessoas do que se escrevesse de cara sobre o fato de mais um viado ter sido morto no Brasil.

A questão aqui não é comparar pessoas com animais, mas, não sejamos ingênuos: o laço de fita da cabeça da cadela fêmea humanizada de forma feminina tem relação direta com a faca que perfurou o corpo de Lucas. Somos tão pouco criativos em relação ao reconhecimento de gêneros distintos das expectativas sociais que, até mesmo com os animais, reproduzimos o esperado e lastimamos quando alguém confunde o sexo da criatura. Afinal, como disse o pai de Lucas, o Sr. Avelino Pardal, "A culpa da morte do meu filho é da sociedade que não aceita as diferenças".

Mas, como nos ensinou Lucas, numa sociedade que não aceita as diferenças, temos que ser cada vez mais diversos, estanhos, esquisitos. Não podemos perder qualquer oportunidade. Essa é a nossa "arma" contra a homofobia: mostrar que não somos bichos e podemos criar novas formas de ser no mundo. Lucas, com aquele sorriso emblemático costuma aparecer de saia durante encontros e protestos do movimento social. Era o seu jeito de enfrentar o preconceito.

Sabendo disso, foi vestindo saias que os membros homens do Grupo Colcha de Retalhos (UFG) (foto abaixo) homenagearam Lucas durante o seu velório na semana passada. O Sr. Avelino foi um dos primeiros a vestir a peça legitimada aqui entre nós como sendo "só de mulher".

Nós homens e mulheres que ainda sonhamos com um mundo novo, temos que ser críticos com essa humanidade padronizada de forma binária: macho/homem masculino e fêmea/mulher feminina. Nem que para isso tenhamos que reiterar a humanização dos bichos, mas ampliando as possibilidades de reconhecimentos de humanidades para categorias de gente e de animais mais criativas, estranhas e esquisitas. Temos a obrigação de sermos e fazermos de um jeito diferente do que está posto, se, de fato, quisermos continuar sobrevivendo.

*Tiago Duque é sociólogo e tem experiência como educador em diferentes áreas, desde a formação de professores à educação social de rua. Milita no Identidade - Grupo de Luta Pela Diversidade Sexual. Gosta de pensar e agir com quem quer fazer algo de novo, em busca de um outro mundo possível.



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Comentários








Renard: "eu", meu fofo: é sempre mais fácil culpar a sociedade, o outro, Deus, a vida etc do que assumir parcial ou totalmente a própria culpa que muitas vezes temos porque o papel de vítima é sempre o mais fácil. Muitos são vítimas de si mesmo. Muita coisa nós podemos prevenir ou tentar evitar, mas tem gente que prefere correr o risco, ignorar o perigo e a informação. Quase tudo é uma questão de como, onde, quando e com quem. Ignorar ou não calcular bem os riscos de algo pode custar a sua vida.

eu: Onde foi que o Lucas teve parte da culpa, Renard?

Luciene: Humanizar bichos é uma atrocidade. Desumanizar pessoas é fazê-lo a si mesmo.Muito bom o texto Tiago, você ligou muito bem dois pontos que me incomodam demais!!

Neto: Eu prefiro bicho do que gente!!!!! Eu gosto mais do contato com os animais e os amo muito mais do que as pessoas desta sociedade !!!!! Sinto muito a morte de qquer animal, como sinto a morte de um ser dito humano !!!!! Os cachorros em especial merecem todo carinho do mundo.....podemos aplicar a eles todo tratamento que gostariamos de experimentar, como comida boa, banhos relaxantes, ofurô, massagens, agua mineral, bons hotéis etc Eu faço tudo que está ao meu alcançe pelos meus "filhos" , gostaria de poder fazer muito mais!!!!! Amo os animais...naun sei se gosto tanto assim dos homens!!!!!

César Gomes: "ser menino ou menina, não fere o meu lado masculino..." (Pepeu Gomes) "deixa ele assumir, deixa ele fazer tudo que ele quiser; melhor do que pegar numa arma para nos matar...) (Lecy Brandão) "um dia tive a ilusão de que ser homem bastaria...) Gilberto Gil "...se correr o bicho pega, se ficar o bicho come porque eu sou é homem" (Ney Matogrosso).

Renard: "A culpa da morte do meu filho é da sociedade que não aceita as diferenças": parcialmente correto porque o filho tem uma parte da culpa pela própria morte também; muito fácil jogar a culpa para a sociedade.

Rodrigo: Senti um certo desapontamento com o fato de que covardias contra cães despertem maior comoção do que crimes homofóbicos, como se os animais merecessem menos. Covardias são covardias. Claro é um absurdo a morte de Lucas, mas não podemos deixar de reconhecer que chocar-se com violência contra animais domésticos (dependentes e responsabilidades dos humanos) demonstra um grande avanço de nossa sociedade. Infelizmente não alcançamos este avanço no que se refere às diferenças de gênero/orientação, mas posso te garantir que as pessoas que se mobilizam pelos direitos dos animais estão muito mais dispostas a ouvir as revindicações do movimento homossexual do que a maioria. Defender o direito de um não exclui a defesa dos direitos do outro. Exigir que as pessoas reconheçam o sexo do cão pode ser humanizá-lo, o que é desrespeitoso quanto à sua condição de animal. Entretanto, comover-se com crimes contra animais não é desumanizar as pessoas, nem necessariamente estar embotado para o sofrimento do

joao walter nery: Excelente texto. Um olhar crítico abrangedo do antropomorfismo aplicado aos animais, como reprodução do velho binarismo de gênero, até a morte banalizada de menino feminino, tornando-a um alívio asséptico para uma civilização que não quer abrir mão das suas normas e que se sente ameaçada em seu hipócrita poder.

fABICO: Esse é o ponto: o respeito pela diversidade. Nós, gays, acabamos caindo na mesma cilada em que cai o restante da sociedade quando entendemos que a diversidade deve ser considerada apenas quando ela diz respeito, diretamente, à minha diversidade. Queremos que todos nos respeitem por sermos homossexuais, mas vejo que muitas vezes não respeitamos a diversidade dentro da própria diversidade. Reclamamos dos efeminados, dos que têm menos grana, dos que não são tão belos, nem tão jovens. Excluímos, debochamos, diminuímos, caricaturamos aqueles que não estão dentro do rígido padrão imposto dentro do grupo que clama pela própria diversidade. Clama pela diferença?! Será?! O restante da sociedade também é assim. Todos vêem apenas as suas dores e necessidades, não a do outro. É estranho, engraçado, trágico até, que estejamos exigindo tanta tolerância e/ou respeito, e não conseguimos aplicar isso nos nossos iguais, em suas especificidades. Enfim.... Novamente, meus parabéns pelo texto. Fantástico T

Franklin Paulote de Paiva: Muito bom o texto. Também não me conformo com estes valores dito "normal", de uma sociedade que, além de agredir covardemente os animais, barbarizam e violentam seus iguais apenas por serem diferentes. A humanidade estaria fadada a extinção, caso todos nós fossemos "iguais" (mesmo com as diferenças, que lutam pelo nosso Planeta, o homem se esmera na arte de se auto detonar, imaginem se todos fossem "iguais". Assustador!). A perda do jovem querido Lucas Fortuna, é lamentável e inaceitável, porém, seu legado em nada poderá ser destruído ou maculado, pois, as vozes se tornaram uma só e ninguém pode combater tamanha força (tendo com exemplar a atitude de seu pai, Sr. Avelino Pardal). Parabéns pelo seu texto Tiago Duque! Franklin Paolotti

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